O silêncio de Maria depois do Pentecostes

O intrigante silêncio da Virgem Maria depois do Pentecostes e a missão da Mãe de Jesus na Igreja

Depois do Pentecostes, o silêncio da Santíssima Virgem Maria é, a princípio, quase incompreensível, pois a Mãe de Jesus esteve presente, nos atestam a Palavra de Deus e a Tradição, nos três momentos constitutivos do mistério de Cristo e da Igreja: a Encarnação no Verbo, o Mistério Pascal e o Pentecostes1. No Cenáculo, Nossa Senhora está presente juntamente com algumas mulheres, mas, num plano superior, não somente em relação a elas, mas também aos apóstolos. A Virgem Maria está presente como “Mãe de Jesus”2! Isso significa que “o Espírito Santo, que está por vir, é ‘o Espírito do seu Filho’! Entre ela e o Paráclito há uma ligação objetiva e indestrutível, que é o próprio Jesus que juntos geraram”3. No Calvário, Maria está aos pés da cruz de Jesus como Mãe da Igreja; no Cenáculo, ela se mostra como madrinha: “uma batizada pelo Espírito que, agora, apresenta a Igreja para o batismo do Espírito. Se os batizados são adultos, a madrinha assiste-os na preparação; é o que Maria fez com os apóstolos e faz conosco”4. Mas, depois do Pentecostes, quando os apóstolos e os discípulos de Jesus foram batizados pelo Espírito Santo, a Mãe de Cristo desaparece, no mais profundo silêncio. Como entender esse silêncio de Maria na Palavra de Deus depois do Pentecostes?

Para entender o silêncio de Nossa Senhora não podemos partir da Palavra de Deus, pois não há nenhuma fonte escrita que nos dê informações a respeito dela. Porém, por indução, a partir dos frutos e das realizações que a Palavra produziu na Igreja, podemos extrair da experiência dos santos algo que diz respeito à vida interior da Mãe da Igreja, pois há leis e elementos constantes no campo da vida espiritual e da santidade dela. Por isso, a partir da experiência dos santos e das santas, que deixaram suas famílias, seus trabalhos e seus bens para se dedicarem inteiramente a Deus, numa vida silenciosa e escondida, podemos compreender melhor o silêncio de Maria depois do Pentecostes, que marca o início da missão da Igreja.

A Virgem Maria “foi a primeira monja da Igreja. Depois de Pentecostes, é como se ela tivesse entrado para uma clausura”5. A vida de Nossa Senhora, agora, “está escondida com Cristo em Deus”6. Da mesma forma que na vida dos santos, o silêncio de Maria é o argumento mais seguro e eloquente de todos. “Maria inaugurou, na Igreja, aquela segunda alma ou vocação, que é a alma escondida e orante, ao lado da alma apostólica e ativa”7. Os apóstolos, depois de receber o Espírito Santo, vão logo às praças para pregar8, fundam e dirigem igrejas9, enfrentam processos10 e convocam um Concílio11. Mas a respeito de Maria nada se fala, pois ela permanece unida em oração com as mulheres no Cenáculo. Dessa forma, o silêncio dela nos mostra que, na Igreja, o serviço na construção do Reino dos Céus não é tudo, são indispensáveis as almas orantes que o sustentam.

Nossa Senhora é o “protótipo e o modelo acabado”12 da Igreja. A Mãe de Deus é imagem da Igreja “enquanto arquétipo, isto é, enquanto ‘ideia’ realizada de forma perfeita e inigualável”13. Para compreender esse carisma de Maria, voltemo-nos à experiência de Santa Teresinha do Menino Jesus, na descoberta de sua vocação na Igreja. Depois de ler a descrição dos carismas feita por São Paulo, Teresinha “teria desejado ser apóstolo, sacerdote, mártir… […] Esses desejos tinham-se tornado para ela um verdadeiro martírio, até que, um dia, eis a descoberta: o Corpo de Cristo tem um coração que move todos os membros e sem o qual tudo pararia. E no auge da alegria, exclamou: ‘No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor e assim serei tudo!’14” Naque dia, Santa Teresinha descobriu a vocação de Maria: ser, na Igreja, o coração que ama, o coração que ninguém vê, mas que tudo move; sem ele, todo o seu corpo pararia.

Assim, a presença da Virgem Maria na Igreja foi, e continua sendo, presença orante e silenciosa, escondida aos olhos dos homens. Essa é a vocação dos religiosos e religiosas, que também diz respeito à vocação dos leigos e leigas na Igreja. Essa vocação ao silêncio, ao escondimento e à oração foi revelada a Santa Faustina, em um momento de oração, pela própria Mãe de Jesus: “Vossa vida deve ser semelhante a minha: silenciosa e oculta, continuamente unida a Deus, em súplica pela humanidade e a preparar o mundo para a segunda vinda de Deus”15. Acolhamos essas palavras de Nossa Senhora e procuremos vivê-la com uma vida silenciosa e oculta, continuamente unida a Deus, em oração suplicante pela salvação da humanidade, preparando o mundo para a segunda vinda de Jesus Cristo. Essa é a vocação de Maria e a nossa vocação, a vocação da Igreja: no silêncio, no escondimento e na oração, ser o coração que ama e que tudo move, para preparar um povo bem disposto para a vinda de Cristo e para o Reino dos Céus. Nossa Senhora, Mãe da Igreja, rogai por nós!

1Cf. Lc 1, 26-38; Jo 19, 25-27; At 1, 14.

2At 1, 14.

3CANTALAMESSA, Raniero. Maria, um espelho para a Igreja. Aparecida: Santuário, 1992, p. 129.

4Idem, p. 130.

5Idem, ibidem.

6Cl 3, 3.

7CANTALAMESSA, Raniero. Op. cit. Aparecida: Santuário, 1992, p. 131.

8Cf. At 2, 14-36; 5, 12-16; 9, 26-30.

9Cf. At 6, 1-7; 9, 19b-25; 11, 19-26.

10Cf. At 4, 1-22; 5, 17-42; 7, 1-60.

11Cf. At 15, 4-21.

12CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium. São Paulo: Paulus, 1997, 53.

13RATZINGER, Cardeal Joseph; BALTHASAR, Hans Urs Von. Maria, Primeira Igreja. Coimbra: Coimbra, 1997, p. 143.

14CANTALAMESSA, Raniero. Op. cit. Aparecida: Santuário, 1992, p. 131.

15SANTA MARIA FAUSTINA KOWALSKA. Diário: a Misericórdia Divina na minha alma. Curitiba: Brasileira, 1995, 625.
Natalino Ueda

Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort. É o autor do blog Todo de Maria

O Rosário contempla todas as fases da vida de Jesus

O Rosário é um ‘Evangelho compendiado’, que dará aos que o rezam rios de paz

O Rosário da Virgem Maria é o resumo das Sagradas Escrituras, o “compêndio do Evangelho”1. Nele, contemplamos o rosto de Cristo, no Espírito Santo, escutando a voz do Pai, pois “ninguém conhece o Filho senão o Pai”2. Essa fonte nos foi revelada pelo próprio Cristo: “Não foram a carne nem o sangue quem to revelou, mas o meu Pai que está nos céus”3.

Os mistérios de Deus dependem de uma revelação do alto e só a experiência do silêncio e da oração oferecem o ambiente adequado para a contemplação. O Rosário favorece essa experiência de escuta da voz de Deus e, consequentemente, a contemplação do rosto de Cristo e de Seus mistérios.

Rios de paz

Antes de São João Paulo II, o Beato Papa Pio IX já ensinava que o Rosário é um “Evangelho compendiado”4, que dará aos que o rezam rios de paz5 de que nos fala a Escritura.

Depois de um longo pontificado, já em seu leito de morte, Pio IX deixou-nos um magnífico e comovente testamento espiritual. Questionado por um clérigo sobre o que pensava naquele momento derradeiro, respondeu: “Que hei de pensar, filho meu! Veja: estou contemplando, calmamente, os quinze mistérios que adornam as paredes deste quarto, que são outros tantos quadros de consolo. Se visses como me animam! Contemplando os mistérios gozosos, não me lembro das minhas dores. Pensando na cruz, sinto-me confortado enormemente, pois vejo que não sou sozinho no caminho da dor, mas que adiante de mim vai Jesus. E quando considero os da glória, sinto grande alegria, e me parece que todos os sofrimentos se convertem em resplendores de glória. Ó, como me consola o Rosário neste leito de morte!”6. Depois de dizer tão belas palavras sobre o Rosário, deixa-nos seu testamento espiritual: “Seja este, filhos meus, meu testamento para que vos lembreis de mim na terra”7.

Orientação profundamente cristológica

O Papa Paulo VI descreveu sabiamente o Saltério Mariano: “Oração evangélica, centrada sobre o mistério da encarnação redentora, o Rosário é, por isso mesmo, uma prece de orientação profundamente cristológica.

Na verdade, o seu elemento mais característico – a repetição litânica do “Alegra-te, Maria”– torna-se também ele louvor incessante a Cristo, objetivo último do anúncio do Anjo e da saudação da mãe do Batista”8: “Bendito o fruto do teu ventre”9. A repetição da Ave-Maria constitui o enredo sobre a qual se desenrola a contemplação dos mistérios. O Jesus que cada Ave-Maria recorda é o mesmo que a sucessão dos mistérios propõe como Filho de Deus e da Virgem Maria: “nascido numa gruta de Belém; apresentado pela mesma Mãe no Templo; um rapazinho ainda, a demonstrar-se cheio de zelo pelas coisas de seu Pai; depois, Redentor, agonizante no horto, flagelado e coroado de espinhos; a carregar a cruz e a morrer sobre o Calvário; por fim, ressuscitado da morte e elevado à glória do Pai, para efundir o dom do Espírito”10.

Vida publica de Jesus

Para reforçar a centralidade de Cristo na oração do Rosário, o Papa João Paulo II inseriu – deixando à livre valorização de cada pessoa e das comunidades – os mistérios da vida pública de Cristo.

Nesses mistérios, contemplamos aspectos importantes da pessoa de Cristo como revelador definitivo de Deus. Jesus é declarado Filho dileto do Pai no batismo do Jordão11, anuncia a vinda do Reino, testemunha-o com as obras e proclama as suas exigências. Nos anos da vida pública de Cristo, Seu mistério, de forma especial, mostra-se como mistério de luz: “Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo”12.

Resumo do Evangelho

Assim, para que o Rosário seja mais plenamente o “compêndio do Evangelho”, é conveniente que, depois de recordarmos a Encarnação e a vida oculta de Cristo, nos mistérios gozosos, e antes de meditarmos sobre os sofrimentos da Paixão, nos mistérios dolorosos, e o triunfo da Ressurreição, nos mistérios gloriosos, devemos meditar também sobre alguns momentos particularmente significativos da vida pública de Jesus, nos mistérios luminosos. Esta inserção dos mistérios da luz faz do Rosário um resumo de todo o Evangelho, uma “verdadeira introdução na profundidade do Coração de Cristo, abismo de alegria e de luz, de dor e de glória”13.

Meditar com o Rosário significa entrar no mistério de Deus e entregar as nossas necessidades aos corações misericordiosos de Jesus e de Maria. “O Rosário ‘marca o ritmo da vida humana’ para harmonizá-la com o ritmo da vida divina, na comunhão da Santíssima Trindade, destino e aspiração da nossa existência”14.

Nossa Senhora do Rosário, rogai por nós!

Referências:
1. PAPA JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, 18.
2. Mt 11, 27.
3. Mt 16, 17.
4. ALBERTON, Padre Valério, SJ. Os Papas e o Rosário: O Rosário hoje. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1984, p. 30.
5. Cf. Is 48, 18; 66, 12.
6. PADRE VALÉRIO ALBERTON, SJ. Op. cit., p. 30.
7. Idem, ibidem.
8. PAPA PAULO VI. Exortação Apostólica Marialis cultus, 46.
9. Lc 1, 42.
10. PAPA PAULO VI. Op. cit., 46.
11. Cf. Lc 3, 22.
12. Jo 9, 5.
13. PAPA JOÃO PAULO II. Op. cit., 19.
14. Idem, 25.
Natalino Ueda

Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort. É o autor do blog Todo de Maria

A mensagem de Fátima para o nosso tempo

Em suas aparições em Fátima, Nossa Senhora confiou aos três pastorinhos uma mensagem que se mantém atual para nós

Em 1917, Nossa Senhora apareceu em Fátima a três crianças, Lúcia, Francisco e Jacinta, para revelar ao mundo uma mensagem significativa para aquela época, mas que não perdeu a sua importância em nossos dias. Em seu livro “Luz do mundo”, Papa Bento XVI disse que a mensagem de Fátima nos ajuda a “entender um momento crítico na história: aquele no qual se desencadeia toda a força do mal, que se cristalizou nas grandes ditaduras e que, de outra maneira, age ainda hoje”1. Essas duas grandes ditaduras, o nazismo e o comunismo, que juntas mataram centenas de milhões de pessoas, devastaram a Europa e a Ásia, e, depois da “queda”, espalharam seus erros por todo o mundo.

A resposta desafiadora a todos esses erros “não consiste em grandes ações políticas, mas, ultimamente, pode chegar somente da transformação dos corações. […] Nesse sentido, a mensagem de Fátima não está concluída, mesmo que as duas grandes ditaduras tenham desaparecido”2, pois permanece o sofrimento da Igreja, resta a ameaça às pessoas, que se faz presente não somente por meio da perseguição, da violência, da escravidão, da morte, como vemos no mundo islâmico e em países comunistas, mas também nas ideologias: relativismo, feminismo, ideologia de gênero, cultura de morte e tantos outros erros que corrompem as culturas e as sociedades pelo mundo todo.

Para fazer frente a todos esses males, mantém-se atual a resposta que nos foi dada na mensagem de Fátima, persiste a orientação que Maria nos revelou por intermédio de Lúcia, Francisco e Jacinta. Como profetizou a Santíssima Virgem, nosso tempo está marcado por grandes tribulações. Hoje, o poder das trevas ameaça pisotear a nossa fé de todas as formas possíveis. Por isso, em nossos dias, como outrora, são necessários os ensinamentos que a Mãe de Deus transmitiu aos três pastorinhos.

As aparições de Fátima e a Penitência pela salvação das almas

Na carta com o terceiro segredo de Fátima, revelado por Nossa Senhora aos pastorinhos em 13 de Julho de 1917, a Irmã Lúcia descreve uma visão extraordinária, que nos ajuda a compreender a importância da penitência especialmente para o nosso tempo: “…vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despendia chamas que pareciam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contato do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro. O anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência!”3

A palavra “penitência’ aparece nada menos do que 57 vezes na “Documentação Crítica de Fátima”. Em suas aparições, Nossa Senhora recomendou insistentemente que todos fizessem penitência, inclusive as três crianças, videntes das aparições. Lúcia, Francisco e Jacinta fizeram duras penitências, principalmente pela conversão e salvação dos pecadores.

Entre as penitências que nos pediu a Virgem de Fátima, tem particular importância os sacrifícios. A palavra “sacrifício”, que aparece 38 vezes na Documentação, também é muito importante para compreender a Mensagem de Fátima. Na 4ª aparição, no dia 19 de agosto de 1917, Nossa Senhora deu uma ordem expressa aos pastorinhos: “Rezai, rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores”, dizia ela. “Muitas almas vão para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”4. Pois é um dos meios que a Virgem Maria nos revelou para afastar os males do mundo. Alguns sacrifícios foram ensinados pela própria Virgem, como rezar de joelhos, jejuns e abstinências. Mas outros foram as três crianças que tiveram a inspiração, como aconteceu certa vez, quando encontraram uma corda áspera no caminho por onde passavam. Os três pastorinhos tomaram a corda e repartiram para usar na cintura como um cilício5, dia e noite.

Nossa Senhora e o Santo Rosário pela salvação dos pecadores

O Santo Rosário tem grande importância na mensagem de Fátima. O próprio título com o qual a Virgem Maria se apresentou revela a grande importância dessa oração mariana para a Igreja em nosso tempo. Nossa Senhora apresentou-se aos pastorinhos sob o título de “Senhora do Rosário”. Esse nome aparece por 121 vezes na Documentação das aparições. O termo “Rosário” aparece 282 vezes, e o nome “Nossa Senhora do Rosário”, 51 vezes no Documento.

De fato, a própria Virgem pediu que Lúcia, Francisco e Jacinta rezassem o terço a Nossa Senhora do Rosário. Primeiramente, pelos próprios pecados, mas também e, principalmente, pela salvação dos pecadores. A devoção a Senhora do Rosário começou com a construção de uma capela dedicada a ela, na Cova da Iria, local das aparições. Com a crescente peregrinação dos fiéis e pelo manifesto desejo desses, foi erigida a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, que posteriormente foi elevada a Santuário.

Nossa Senhora pediu insistentemente que os pastorinhos rezassem o Rosário de modo particular para a salvação das almas do inferno. A princípio, as três crianças não levaram muito a sério o pedido da Virgem Maria. Rezavam rapidamente para ter mais tempo para as brincadeiras comuns às crianças de suas idades. Mas, em pouco tempo, passaram a rezar com grande fervor o Santo Terço, pois compreenderam a importância da oração do Rosário para a salvação das almas.

A reparação ao Imaculado Coração da Virgem Maria

Em 13 de junho de 1917, na segunda de suas aparições em Fátima, Nossa Senhora confiou uma missão especial a pequena Lúcia, justamente quando ela pediu para os levar os três para o céu. A Santíssima Virgem respondeu-lhe: “Sim. A Jacinta e o Francisco, levo-os em breve; mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação e serão queridas de Deus essas almas, como flores postas por mim a adornar o Seu trono”. “Fico cá sozinha?”, disse com tristeza. “Não, filha, eu nunca te deixarei, o meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.6

Depois de ouvir essas palavras, Lúcia, Francisco e Jacinta viram a Virgem Maria com um coração na mão, cercado de espinhos. Os pastorinhos compreenderam que aquele era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que necessitava de reparação. Na aparição seguinte, no dia 13 de julho, a Santíssima Virgem repetiu as mesmas palavras e disse que voltaria para pedir a devoção reparadora dos primeiros sábados. Sete anos depois, no dia 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, na Espanha, foi revelado a Irmã Lúcia, na época postulante no Instituto de Santa Doroteia, a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados. A princípio, a Irmã ficou perplexa e não quis expor o fato. Somente em dezembro de 1927, por ordem de seu confessor, Lúcia escreveu as palavras que lhe dirigiu a Santíssima Virgem: “Olha, minha filha, o meu coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de me consolar e dize que todos aqueles que, durante cinco meses, no primeiro sábado, confessarem-se, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço, e me fizerem quinze minutos de companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas”7.

A mensagem de Fátima como remédio contra os males do mundo atual

Assim, a mensagem de Fátima teve grande importância naquele momento histórico. No entanto, quase cem anos depois, a mensagem de Nossa Senhora mantém-se atual. Talvez, hoje, mais do que naquele tempo, as penitências serão remédios eficazes contra o mal, a busca desenfreada pelas coisas materiais, pelo prazer e poder. O Santo Rosário será uma “arma” contra o poder dos demônios. A devoção dos primeiros sábados, em reparação das ofensas contra o Imaculado Coração de Maria, será o caminho seguro de muitas almas para o Reino dos Céus.

Hoje, as grandes ditaduras permanecem agindo em nossos dias, por meio das ideologias, das falsas religiões, das lutas pelo poder e pelas riquezas. Em Fátima, a resposta que nos é dada a essas pela Virgem Maria não consiste em grandes ações políticas, mas na transformação dos corações através da penitência e do sacrifício, da oração do Santo Rosário e da devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Se ouvirmos os apelos de Jesus Cristo e da Virgem Maria, veremos no Brasil e em todas as partes do mundo aquilo que viu o Papa Bento XVI: “Em Fátima, vi centenas de milhares de pessoas que, por meio daquilo que Maria havia confiado às crianças, neste mundo cheio de obstáculos e fechamentos, reencontram, de algum modo, o acesso a Deus”8. Esse nosso encontro com o Senhor será o grande triunfo profetizado pela Virgem Maria: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”9. Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós!

Referências:
1 PAPA BENTO XVI. Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos, p. 197.
https://www.paulinas.org.br/loja/luz-do- mundo
2 Idem, ibidem.
3 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. A mensagem de Fátima.
www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html
4 PADRE PAULO RICARDO. O Milagre do Sol, “para que todos acreditem”.
https://padrepauloricardo.org/blog/o-milagre- do-sol- para-que- todos-acreditem
5 “O cilício é um objeto que se utiliza para incomodar a pele, podendo ser constituído por tecidos ásperos, sacos de estopa ou mesmo pequenos ferros que, longe de perfurar a pele, causam certo incômodo, sendo eficazes na mortificação do sentido do tato”. PADRE PAULO RICARDO. A Igreja ainda aprova o uso do cilício? https://padrepauloricardo.org/episodios/a-igreja- ainda-aprova- o-uso- do-cilicio
6 SANTUÁRIO DE FÁTIMA. Documentação Crítica de Fátima Seleção de documentos (1917-1930), p. 354. http://www.fatima.pt/files/upload/fontes/F001_DCF_selecao.pdf
7 Idem, ibidem.
8 PAPA BENTO XVI. Op. cit., p. 196.
9 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Op. cit.
Natalino Ueda

Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort. É o autor do blog Todo de Maria

Ensinamentos de Nossa Senhora de Guadalupe

Nas suas aparições, Nossa Senhora de Guadalupe deixou para nós ensinamentos preciosos, que permanecem válidos em nossos dias

Nossa Senhora de Guadalupe apareceu ao índio Juan Diego e a ele confiou ensinamentos importantíssimos, não somente para as Américas, da qual ela é padroeira, mas para todo o mundo. Em 9 de dezembro de 1531, nos arredores da colina Tepeyac, que fica na atual Cidade do México, aconteceu a primeira aparição de Nossa Senhora naquelas terras.

A aparição da Virgem Maria no México teve um significado histórico impressionante na evangelização dos nativos. Naquele tempo, numerosas etnias habitavam o vale de Anahuac, atual Cidade do México, durante décadas, sob a tirania dos astecas, tribo poderosa, que praticava habitualmente sangrentos ritos idolátricos. Todos os anos, os astecas sacrificavam milhares de pessoas para, conforme sua crença, manter aceso o “fogo do sol”. Além de fazer sacrifícios humanos, os astecas praticavam a antropofagia1, a poligamia2 e o incesto3, que faziam parte da cultura desses povos.

Missionários espanhóis tentaram mudar os costumes dos nativos, mas sem sucesso. O que dificultava a missão dos religiosos era a dificuldade de comunicação, pois não compreendiam os vários dialetos, os maus hábitos, extremamente enraizados na cultura dos nativos, e a relutância destes em deixar a idolatria e aceitar o Deus verdadeiro4.

Nesse difícil contexto histórico, cultural e religioso, as aparições de Nossa Senhora a Juan Diego e os milagres que se seguiram, especialmente a imagem que milagrosamente ficou estampada na tilma5, deram à obra dos missionários católicos naquelas terras a eficácia necessária para a evangelização. A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe teve grande importância na conversão dos povos pagãos do México devido aos vários símbolos nela contidos, que os nativos souberam interpretar e consequentemente compreender a mensagem de Deus nela contida. A partir das aparições de Nossa Senhora, a conversão daqueles pagãos para o Cristianismo se realizou prodigiosamente.

Nossa Senhora de Guadalupe e a proteção das famílias

Depois de quase 500 anos, não somente o México, mas a humanidade como um todo vive um neopaganismo6 e necessita novamente do auxílio da Virgem de Guadalupe. No tempo dos astecas, a poligamia e o incesto eram práticas normais. Hoje em dia, torna-se cada vez mais comum o divórcio, o adultério, a prostituição, a pedofilia, os “casamentos” entre homossexuais, “casamentos alternativos” e tantos outros tipos de relações sexuais suscitados pela ideologia de gênero e outras ideologias. Diante desses terríveis males do nosso tempo, devemos defender a família na sua natureza e missão genuínas e incentivar uma educação que prepare retamente as pessoas para a vida e as torne conscientes das suas capacidades, para que enfrentem digna e responsavelmente a sua vocação na sociedade7.

Em contraste com esse quadro desolador, o olhar da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, que tem ao centro uma família, traz-nos uma mensagem de esperança. Segundo o cientista José Aste Tonsmann, que há mais de 34 anos investiga as imagens encontradas nos olhos da Virgem de Guadalupe, essas nos apresentam “uma mensagem de Nossa Senhora a favor da vida e da família em um momento em que ambos são duramente atacados em todo mundo”8. Homem de fé, Dr. Tonsmann acredita que não foi por coincidência que só com a atual tecnologia possamos “decifrar” esta mensagem oculta nos olhos da imagem da Senhora de Guadalupe. Pela Providência divina, “o avanço da tecnologia coincidiu com uma época em que a família é denegrida em todo mundo, por isso, podemos afirmar que a Virgem quis que em nosso tempo a família seja posta em relevo”9.

Outra mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe para nosso tempo é que, ao aparecer grávida na imagem, ela nos chama à atenção para a necessidade de respeitarmos a vida nascente. José Aste acredita ainda que a mensagem mais importante – escondida nos olhos da imagem de La Morenita, como é conhecida Nossa Senhora de Guadalupe pelos mexicanos – é que apesar de ter outras seis imagens10, no centro do olhar de Maria se encontre uma família: “É como se a Virgem nos assinalasse a importância da família em um tempo em que esta sofre constantes ataques”11, pois a família é necessária para a perpetuação das culturas e da sociedade, mas também para a realização da vocação última do homem, que é a união definitiva com seu Criador. O próprio Verbo de Deus quis vir ao mundo na Sagrada Família de Nazaré, no lar de Maria e José, como que para mostrar à Igreja e ao mundo a dignidade e o lugar da família na obra da salvação da humanidade.

A Virgem de Guadalupe e a defesa da vida

Naquele tempo, todos os anos os astecas faziam milhares de sacrifícios humanos, de homens, mulheres e até crianças, de pessoas da sua própria tribo ou de outras etnias. Em nossos dias, vemos um retorno aos costumes pagãos, pois se torna cada vez mais comum a prática do aborto, do controle de natalidade, da eutanásia. Essa cultura da morte faz parte do terrível ataque que a “civilização” contemporânea faz à família humana em nossos dias. A esse respeito, o Papa Bento XVI nos ensina que devemos ser “defensores da vida humana desde a sua concepção até ao seu ocaso natural”12.

Nesta árdua missão de defender a vida, como outrora, hoje também nos deparamos com dificuldades de comunicação. Todavia, o problema não é mais tanto o idioma, mas o desconhecimento da verdade. A ditadura do relativismo, que é a negação de verdades objetivas, em última análise é uma negação da fé, da moral e dos dogmas cristãos. Este pensamento está sendo imposto cada vez mais na sociedade, principalmente no meio acadêmico. Dessa forma, surge um novo paganismo, no qual, em nome da deusa “razão”, em muitos países, pessoas têm o “direito” de abortar uma gravidez, de tirar uma vida.

Neste momento trágico da história da humanidade, somos convidados a voltar nosso olhar para a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Na imagem da Virgem Maria, a faixa preta atada no seu ventre, símbolo asteca da gestação maternal, revela-nos uma mensagem dos Céus a favor da vida. O Cardeal Marc Ouellet afirmou que a aparição da Virgem de Guadalupe como uma mulher grávida é um testemunho poderoso a favor da vida e contra o aborto. A imagem “recorda-nos que a Palavra de Deus se fez carne no ventre de uma mulher e Ele nos leva à redenção, à renovação das relações, à misericórdia com o mundo e também à abertura à vida e à esperança”13. Na imagem de Guadalupe, a Virgem Maria traz em seu ventre Jesus Cristo, “a Verdade e a Vida”14, que tanto necessitamos em nossos dias.

As aparições de Senhora e o poder das trevas

Na mesma região das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe, um evento sem precedentes foi realizado na cidade de San Luís Potosí, região central do México. Um grupo de bispos e padres realizou um “exorcismo magno”, também chamado de “grande exorcismo”, sobre todo o México. O rito foi realizado no dia 20 de maio do ano passado, na catedral metropolitana da cidade. “O exorcismo foi realizado para conter o avanço do aborto e da violência ligada ao tráfico de drogas, e também para frear práticas como o satanismo e o culto pagão à ‘santa morte’, as quais [… explica Padre José Antonio Fortea] ‘provocaram uma grande infestação satânica em todo o México’”15. Diante desses fatos, vemos que estamos realmente diante de um verdadeiro retorno ao antigo paganismo.

Esse neopaganismo torna-se ainda mais grave e impiedoso que o anterior, porque, no seu “altar” sacrificam-se milhares e milhares de vidas inocentes, ainda no ventre de suas mães. A esse respeito, em exorcismos feitos na Itália pelo Padre Pellegrino Ernetti, o demônio diz pela boca de um possesso: “Foi a minha descoberta mais bela e saborosa! Matar os inocentes em vez dos culpados e homicidas da máfia! Destruo a humanidade e assim termino, antes do nascimento, com os adoradores do vosso falso Deus”16. O inimigo diz claramente que o aborto tem como finalidade destruir a humanidade e os cristãos.

Quanto às drogas, as palavras do demônio são surpreendentes: “É o alimento mais saboroso que dou de comer aos jovens para enlouquecerem. Desta forma, faço com que se tornem aquilo que quero: ladrões, assassinos, impudico [pessoas sem pudor], ferozes como eu, dominadores do mundo, meus ministros”17. As palavras do demônio são ainda mais surpreendentes em relação ao divórcio, à separação de casais: “Foi invenção minha. Reivindico a sua propriedade. É uma das minhas descobertas mais inteligentes. Desta forma, destruo a família e a sociedade, onde sou adorado como verdadeiro rei do mundo. O sexo… o sexo. Não deis ouvidos àquele homem [Jesus] pendurado da cruz que não vos dá nada. O verdadeiro prazer somente eu vos dou com o sexo livre. O meu reino é sobretudo a liberdade do prazer sexual, com o qual reino sobre a terra”18.

Depois de ler estas palavras com algumas das estratégias demoníacas a respeito do aborto, das drogas e das famílias, não é difícil descobrir quais são as causas de tantos males no México e em todo o mundo.

A reparação das ofensas contra a Virgem Maria

Portanto, quando em que um país aumenta desmedidamente o pecado, o aborto, o divórcio, o sexo livre, as drogas e tantos outros males, na mesma medida cresce a ação tentadora dos demônios. “Na medida em que em uma nação se realizem mais atos de bruxaria e mais satanismo, nessa mesma medida acontecerão mais fatos extraordinários provindos desses poderes das trevas”19. A gravidade da situação no México, que levou à necessidade do “exorcismo magno”, e também no mundo todo, são reveladas em um fato acontecido no Vaticano. Em 2013, Papa Francisco impôs as mãos sobre um peregrino mexicano chamado Ángel. Um dia depois, o exorcista Padre Gabriele Amorth conversou com o rapaz e depois afirmou não ter dúvidas de que ele estava possuído. Segundo o Padre Amorth, Ángel “foi eleito pelo Senhor para mandar uma mensagem ao clero mexicano e dizer aos bispos que têm que fazer um ato de reparação pela horrenda lei do aborto aprovada na cidade do México em 2007 e que supõe um ultraje à Virgem”20.

Por todo o mundo, vemos a crescente impiedade dos homens e a ação dos demônios têm desencadeado uma onda de ódio, violência e maldade por toda a Terra. Entretanto, as contínuas aparições da Virgem Maria, como aconteceu no México, são poderosos auxílios divinos em nossa luta contra os poderes das trevas. Por isso, satanás abomina as aparições marianas, como poderemos constatar nas suas palavras em um exorcismo: “O maior mal deste tempo, para mim, são as contínuas presenças [aparições] desta meretriz [Nossa Senhora]. Aparece em todo o mundo, em todas as nações e persegue-me, arrancando das minhas mãos tantas almas, milhares e milhares, para ouvirem as suas falsas mensagens”21.

Se satanás odeia a Virgem Maria e diz que a sua presença é o maior mal deste tempo para ele, ao contrário, devemos amar profundamente a Mãe de Deus e reconhecer, nas suas aparições, o maior bem do nosso tempo. Por isso, nas festas marianas, mas também em nosso cotidiano, devemos prestar a Virgem Maria a nossa mais sincera homenagem, de modo especial pela sua presença amorosa como Mãe das Américas. Em honra da Virgem Maria, façamos atos de reparação pelos terríveis males do nosso tempo, principalmente a degradação das famílias, o aborto, as drogas, a violência e o satanismo. Nossa Senhora de Guadalupe, rogai por nós!

Oração do Santo Padre Papa João Paulo II a Nossa Senhora de Guadalupe

“Ó Virgem Imaculada, Mãe do verdadeiro Deus e Mãe da Igreja! Vós, que deste lugar manifestais a vossa clemência e a vossa compaixão por todos os que imploram o vosso amparo, ouvi a oração que com filial confiança vos dirigimos e apresentai-a ao vosso Filho Jesus, único Redentor nosso.

Mãe de misericórdia, Mestra do sacrifício escondido e silencioso, a vós, que vindes ao encontro de nós todos, pecadores, consagramos, neste dia, todo o nosso ser e todo o nosso amor. Consagramo-vos também a nossa vida, os nossos trabalhos, as nossas alegrias, as nossas doenças e os nossos sofrimentos.

Dai a paz, a justiça e a prosperidade aos nossos povos, já que tudo o que nós temos e o que somos o deixamos ao vosso cuidado, Mãe e Senhora nossa. Queremos ser totalmente vossos e convosco desejamos percorrer o caminho de uma fidelidade plena a Jesus Cristo na sua Igreja: não nos deixeis desprender da vossa mão amorosa.

Virgem de Guadalupe, Mãe das Américas, pedimo-Vos por todos os Bispos, a fim de que eles conduzam os fiéis por veredas de intensa vida cristã, de amor e humilde serviço a Deus e às almas.

Contemplai essa seara imensa e intercedei para que o Senhor infunda fome de santidade em todo o povo de Deus, e conceda abundantes vocações de sacerdotes e religiosos fortes na fé e zelosos dispensadores dos mistérios de Deus.

Concedei aos nossos lares a graça de amarem e respeitarem a vida nascente, com o mesmo amor com que vós em vosso seio concebestes a vida do Filho de Deus.

Virgem Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, protegei as nossas famílias, para que elas estejam sempre muito unidas, e abençoai a educação dos nossos filhos. Esperança nossa, olhai-nos com compaixão, ensinai-nos a ir continuamente para Jesus e, se cairmos, ajudai-nos a levantarmo-nos e a voltarmos para Ele, mediante a confissão das nossas culpas e dos nossos pecados no sacramento da penitência que traz sossego à alma.

Suplicamo-vos que nos concedais um amor muito grande a todos os santos sacramentos, que são como marcas que o vosso Filho nos deixou na terra.

Assim, nossa Mãe Santíssima, com a paz de Deus na consciência, com os nossos corações livres do mal e de ódios, poderemos levar a todos a alegria a paz verdadeiras, as quais vêm do Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que, com Deus Pai e com o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém”22.

1. Comiam carne humana.
2. Casavam-se com mais de uma mulher.
3. Mantinham relações sexuais e/ou maritais com pessoas da família e parentes próximos.
4. Cf. ARAUTOS DO EVANGELHO. Nossa Senhora de Guadalupe.
5. Poncho típico dos índios mexicanos.
6. O neopaganismo pode ser também chamado de retorno ao paganismo.
7. PAPA BENTO XVI. Homilia de 12 de Dezembro de 2011. http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2011/documents/hf_ben-xvi_hom_20111212_america-latina.html
8. ACI DIGITAL. Os olhos da Virgem de Guadalupe oferecem ao mundo uma mensagem a favor da família, destaca perito.
9. Idem, ibidem.
10. Cf. Idem, ibidem. Estas imagens são: um indígena sentado; um ancião que, baseado nas representações de Miguel Cabreras, pintor do século XVIII, trataria-se do bispo Juan de Zumárraga; um homem jovem que se trataria de Juan González, tradutor do bispo; o santo mexicano São Juan Diego Cuauhtlatoatzin; uma mulher negra que teria embarcado com o bispo na Espanha para servi-lo no México e a quem o prelado concedeu a liberdade antes de seu falecimento, e um homem barbado com facções europeias.
11. Idem, ibidem. A família que aparece no centro dos olhos da imagem de Guadalupe é um grupo de pessoas composto por uma moça que se destaca por estar ao centro do grupo e parece olhar para baixo, e que o perito acredita ser a mãe desta família. Junto a ela está um homem com chapéu e entre ambos, um casal de crianças. Outro par de figuras representando um homem e mulher maduros (provavelmente os avós desta família, segundo o Dr. Tonsmann) encontram-se de pé, atrás dos demais.
12. PAPA BENTO XVI. Op. cit.
13. ACI DIGITAL. Virgem de Guadalupe oferece poderosa mensagem contra o aborto.
14. Jo 14, 6.
15. PADRE PAULO RICARDO. Bispos e sacerdotes realizam “exorcismo magno” no México.
16. PELLEGRINO ERNETTI. Estratégias de Satanás, p. 21.
17. Idem, ibidem.
18. Idem, p. 20.
19. PADRE PAULO RICARDO. Bispos e sacerdotes realizam “exorcismo magno” no México.
20. Idem, ibidem.
21. PELLEGRINO ERNETTI. Estratégias de Satanás, p. 25.
22. PAPA JOÃO PAULO II. Oração do Santo Padre à Nossa Senhora de Guadalupe. http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1979/january/documents/hf_jp-ii_spe_19790125_preghiera-guadalupe.html
Natalino Ueda

Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort. É o autor do blog Todo de Maria

Por que Maria é estritamente ligada a Cristo?

Os dogmas de Maria nos levam a Cristo

O Concílio Vaticano II (1962-1965), considerado como o evento mais importante da Igreja no século XX, num dos seus documentos mais significativos, mostra a estreita ligação de Maria a seu Filho Jesus nestes termos: “Pensando nela com devoção, a Igreja penetra mais profundamente no mistério da encarnação e se conforma sempre mais ao seu esposo” (Documento sobre a Igreja, Lumen gentium, n. 65). Em outras palavras, a correta devoção a Nossa Senhora nos aproxima mais de Cristo. Vamos ver como isso acontece.

Os dogmas marianos mostram que Cristo é verdadeiro Deus e homem (Dogma da Maternidade Divina de Maria); apontam para a necessidade de encontrar em Cristo a libertação do pecado (Dogma da Imaculada Conceição); garantem a tensão escatológica, quer dizer que estamos caminhando para a ressurreição final (Dogma da Assunção de Maria); e confirmam a fé em Deus Criador, que intervém livremente na matéria (Dogma da Virgindade de Maria).
Ressalta-se a primeira afirmação: para mostrar que Jesus era, ao mesmo tempo, Deus e homem, o Pontífice, “aquele que faz a ponte” entre Deus e o homem, a “fórmula” mais fácil foi afirmar que Maria é a Mãe de Deus. No fundo, este dogma mariano foi mais um dogma cristológico. Aqui, podemos entender que Maria nos leva a Cristo: este, pois, foi o “caminho” que Deus escolheu para nós, como diz o Credo do Concílio de Niceia (ano de 325): “Por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus: e se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem”.

Há, no entanto, uma outra interessante consideração sobre o lugar de Maria na Igreja. A devoção a Maria manifesta a necessária integração entre Bíblia e Tradição: pois esses quatro dogmas têm fundamento na Escritura, como semente que cresce na tradição (liturgia, intuição do povo crente, reflexão teológica sob a guia do Magistério). Falou-se disso, acima, particularmente com referência aos dogmas da Imaculada e da Assunção. Então, na sua pessoa de moça judia, mãe do Messias, Maria liga Antigo e Novo Testamento: sem essa junção, a fé vai demais para o Antigo Testamento ou se limita no Novo Testamento. Quanto ao Antigo Testamento, eis, por exemplo, o anjo Gabriel anunciando a Maria que “o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e ele reinará para sempre na casa de Jacó. E seu reino não terá fim” (1,32-33). O mesmo evangelista relata o cântico do Magnificat, em que Maria fala do cumprimento das promessas de Deus “a Abraão e seus filhos” (1,55). E quanto ao Novo Testamento, nas bodas de Caná, o evangelista João nos apresenta uma significativa atuação de Maria que leva os discípulos a “crerem nele” (2,11).

Maria modelo da Igreja

O Concílio Vaticano II apresenta Maria como modelo perfeitíssimo na fé e na caridade” (Documento sobre a Igreja, Lumen gentium, n. 53). Olhando para esse modelo, a Igreja se preserva daquele modelo machista, que a reduz a uma ação sócio-política, a uma abstração. E quando vira abstração, não precisa de uma mãe. Ela mostra “o rosto materno de Deus”, garantindo a convivência da indispensável “razão” com as indispensáveis “razões do coração”.

É interessante verificar que nenhum outro cristão, exceto Maria, é considerado como “modelo perfeitíssimo da Igreja”. Esse modelo nos leva necessariamente a seu Filho, Jesus Cristo.

A profunda ligação entre Cristo e Maria nos foi lembrada, a título de exemplo, numa homilia do Papa Francisco, proferida no dia 1º de janeiro de 2015. Eis as suas palavras: “Cristo e sua Mãe são inseparáveis: há entre ambos uma relação estreitíssima, como aliás entre cada filho e sua mãe. Tal inseparabilidade é significada também pelo fato de Maria, escolhida para ser Mãe do Redentor, ter compartilhado intimamente toda a sua missão, permanecendo junto do Filho até ao fim no calvário”. Mas o “momento forte”, ou “kairos”, no qual nós cristãos entendemos e alimentamos nossa fé Naquele que nasceu da Virgem Maria é a Liturgia, ou seja, a oração pública da Igreja. Essa oração, pois, expressa e alimenta a nossa fé.

A lei da oração é a lei da fé

Há um princípio muito importante a ser seguido no caminho da nossa fé, expresso pelo princípio Lex orandi, lex credendi, a saber, “A lei da oração é a lei da fé”. Isso significa que a oração expressa a nossa fé.

Tal princípio se aplica particularmente na oração pública da Igreja: a Liturgia. A palavra “Liturgia” vem do grego “leiton ergon” e significa “ao pé da letra”, “obra pública”. Para nós, refere-se à oração pública e oficial da Igreja. A “Liturgia” é definida pelo Concílio Vaticano II como “o exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo” e “obra de Cristo Sacerdote e do Seu corpo, que é a Igreja” (Documento sobre a Liturgia, Sacrossanctum Concilium, n. 7).

A Liturgia se expressa, de maneira eminente, na celebração da Eucaristia, que é “fonte e cume de toda a vida cristã” (Documento do Concílio Vaticano II sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 11).

A partir disso, podemos afirmar que, quando participamos da Celebração Eucarística, vamos entender, expressar e aprofundar a nossa fé. No fundo, a Liturgia é a grande escola da fé do povo cristão. Nessa “escola”, precisamos aprender a ser “bons alunos”. Isso, pois, significa que, para entendermos o lugar de Maria na vida cristã, é fundamental partir das celebrações da Igreja que faz solene memória da mãe de Cristo.

O lugar de Maria na vida cristã a partir da Liturgia

As três celebrações marianas mais importantes do ano litúrgico apontam para os quatro dogmas marianos: Maria Mãe de Deus, sempre Virgem (1º de janeiro); Imaculada Conceição (8 de dezembro) e Assunção (15 de agosto).

A Igreja definiu estas quatro verdades sobre Nossa Senhora, a saber:
– Maternidade Divina de Maria. Foi definida no Concílio de Éfeso (ano 431).
– Virgindade Perpétua de Maria. Foi definida no II Concílio de Constantinopla (ano 553).
– Imaculada Conceição de Maria. Foi definida pelo Papa Pio IX na Bula Ineffabilis Deus (8 de dezembro de 1854).
– Assunção de Maria. Foi definida pelo Papa Pio XII na Bula Munificentissimus Deus (1º de novembro de 1950).

Essas verdades são expressas na Liturgia. A título de exemplo, podem-se considerar algumas orações da Solenidade de “Maria Mãe de Deus”.

No dia 1º de Janeiro, Solenidade de Maria Mãe de Deus, a Igreja proclama, ao mesmo tempo, a Maternidade Divina de Maria e sua Virgindade Perpétua.

Eis, pois, como expressar isso:

a) Na Coleta: “Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à humanidade a salvação eterna, dai-nos contar sempre com a sua intercessão, pois ela nos trouxe o Autor da vida”.

b) Na Oração sobre as oferendas: “Ó Deus, que levais à perfeição os Vossos dons, concedei aos Vossos filhos, na festa da Mãe de Deus, que, alegrando-se com as primícias da Vossa graça, possam alcançar a sua plenitude”.

c) No Prefácio: “Na verdade, ó Pai, Deus Eterno e Todo-poderoso, é nosso dever dar-Vos graças, é nossa salvação dar-Vos glória, em todo tempo e lugar, e na Maternidade de Maria, sempre Virgem, celebrar os vossos louvores”.

d) Oração depois da Comunhão: Ó Deus de bondade, cheios de júbilo, recebemos os sacramentos celestes; concedei que eles nos conduzam à vida eterna, a nós que proclamamos a Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja.

As partes grifadas dessas orações apontam para a fé da Igreja na Maternidade Divina e na Virgindade Perpétua de Nossa Senhora. Esse mesmo “exercício” pode ser feito para as outras solenidades marianas; e, no fundo, para cada celebração cristã.

O sentido da fé dos fiéis e os dogmas marianos

Voltando ao princípio – “a lei da oração é a lei da fé” –, pode-se observar que as definições dos Concílios, ou dos Papas acima indicadas, são todas posteriores à fé do povo.

No mês de junho de 2014, a Comissão Teológica Internacional publicou um interessante documento intitulado Sensus fidelium, que significa o sentido dos fiéis. Eis como o define:

“O sensus fidei fidelis [sentido da fé dos fiéis] é uma espécie de instinto espiritual que capacita o crente a julgar espontaneamente se um ensino ou prática particular está ou não em conformidade com o Evangelho e com a fé apostólica.” (N. 49).

Essa afirmação tem uma significativa confirmação quanto à fé da Igreja sobre Maria. A título de exemplo, os dogmas da Imaculada e da Assunção foram definidos recentemente, como foi visto acima: mas o povo de Deus celebrava, fazia séculos, a Imaculada Conceição e a Assunção de Maria: e, particularmente, na Liturgia. Em outras palavras, já havia as festas da Imaculada Conceição e de Nossa Senhora da Glória.

É interessante lembrar, a esse respeito, o que Jesus disse aos Seus discípulos na última ceia: “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar agora. Quando ele vier, o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade completa” (João 16,12-13). Nesse sentido, os apóstolos não receberam uma “revelação completa” de Jesus. O Espírito, dom do Cristo Ressuscitado, “sopra” sobre o povo de Deus, a Igreja, e a leva, aos poucos “à verdade completa”. Nesta “caminhada da fé”, guiados pelo Espírito, entendemos sempre mais quem é Cristo e todos os que a Ele pertencem, a partir da Sua Mãe.
Lino Rampazzo

Doutor em Teologia pela Pontificia Università Lateranense (Roma), Lino Rampazzo é professor e pesquisador no Programa de Mestrado em Direito do Centro Unisal – U.E. de Lorena (SP) – e coordenador do Curso de Filosofia da Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP).